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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

A Ferroada da Vespa (ou) Discreto e Fora do Meio


Toda essa história de não se assumir gay é tão século passado para mim, que enquanto organizo minhas ideias para esse texto me questiono: "o que há dentro do armário? E porque tanto medo de sair dele?". Acredito que não saberia responder essa pergunta, até porque não houve muito tempo para mim dentro dele, assim que eu vi despertar em mim esse desejo incomum, depois que beijei o primeiro rapaz e percebi que aquilo era realmente o que eu queria para minha vida e além disso organizei minhas ideias e percebi que não era apenas uma questão sexual, pois pasmem vocês, ser gay não se resume a transar com alguém do mesmo sexo que o seu, não passou nem mesmo dois anos e minha mãe descobriu que eu era gay. BAM! 

E em tempos natalinos, onde as famílias se reúnem para diversos momentos felizes (e de constrangimentos) somos premiados com a história do carioca Felipe que em um amigo secreto arrancou seu primo "discreto e fora do meio" do armário em frente de toda a família (e a atual namorada do primo), dando para ele uma camiseta com estampa de fotos do perfil no Hornet (app de pegação das gay) do próprio primo. Detalhe: a camiseta era laranja para combinar com a cor temática do app (bicha pensa em tudo!). Torta de climão e roteiro de serie no canal Multishow, claro!

Mas pelo que eu fui pesquisar (julgo stalkear) sobre a história, o que dizem é que o tal primo "discreto e fora do meio", não era somente mais um dos milhares de gays ao redor do mundo que não se assumem e usam meios (quase) anônimos para conseguir relações sexuais, o primo atormentava a vida do menino com atitudes preconceituosas, homofobicas, machistas e diante de tanta perseguição ele resolveu dar o troco. E deu, né?! Uma ferroada de vespa na cara! Até fiquei horas imaginando a cena... pena que na minha família não dá para fazer uma dessas porque tudo mundo sabe que eu sou viado e ninguém se mete a besta de falar algo comigo.

Esse é um caso especifico que a maioria de nós (inclusive eu) poderíamos dizer que foi bem feito e o troco foi dado com sucesso. Porém, não levantando a bandeira em defesa do primo "discreto e fora do meio", até porque dentro do contexto da história deles, ele não era apenas alguém que não tinha uma situação social, emocional e/ou financeira que daria tranquilidade suficiente para o mesmo se assumir homossexual, mas alguém que causava desconforto emocional ao parente. Só que não podemos esquecer, que de modo geral, ser gay não é fácil, mesmo sendo muito bom e não são todas as pessoas que estão preparadas para encarar de frente esse estilo de vida, e como eu disse acima, não entrem em pânico, mas ser gay não é APENAS transar com uma pessoa do mesmo sexo que o seu. Inclusive, ser gay nem precisa ser necessariamente o aspecto mais importante de sua vida, existem outras competências, existem outros lados para serem compartilhados ao mundo, que consequentemente vão estar alinhados ao fato de você ser gay assumido, dentro do meio e muito bem resolvido com isso.

E mesmo apoiando a atitude de Felipe, não penso que ser assumido nos dê o direito de querer tirar a humanidade forçadamente do armário. Há muitas pessoas que gostaria de estar aqui como eu falando abertamente de sua própria sexualidade, sem medo de uma repressão, mas não pode (ou não quer) por centenas de motivos reais (e inventados) ou tem preguiça, sei lá! Cada indivíduo escolhe o seu próprio caminho ainda que condicionados a diversas situações diárias, mas a decisão final de ir para a direita ou para a esquerda (ou até mesmo ficar parado entre as duas) é particular. Não acabe a nós escolher a hora, data e local da saída de armário das pessoas.

E vocês senhores do armário, não pensem também que por estar ai dentro vocês estão protegidos de serem o alvo um dia, na verdade, a diferente entre nós e vocês é simplesmente posicionamento, nós somos o pelotão de frente e se a gente cair, não tenham dúvidas que vocês são a próxima mira a ser atingida. Ser "discreto e fora do meio" não faz de você uma pessoa especial, mas faz de você um aproveitador da luta alheia. Uma pena que você que está ai dentro não entendeu ainda que é mesmo desafiador a condição de homossexual não difere você de nenhum outro ser humano, não o torna inferior e mesmo "se assumindo" você não precisa adotar um papel militante, feminino ou qualquer outro comportamento que considere "gay demais", ser gay é ser comum, é a mesma coisa que ser heterossexual, bissexual ou assexuado.

Por fim, apenas espero que o Natal de 2014 faça você refletir que ninguém está lhe obrigando a sair do armário, mas pense antes de atacar aquele primo bichinha ou fazer aquele comentário machista por que se você tiver o rabo preso, meu amigo, pode lhe acontecer coisas piores. Lembre-se: uma ferroada de vespa pode bem ser dolorida (e deixar marcas). Imagina...

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

história 208: abre teu olho, japonesa!

Cá estou eu solteiro... e agora com smartphone em mãos e internet 3G disponível, e nessa minha onda de experimentação resolvi entrar num desses Appde relacionamento [leia-se pegação gay]. Depois de uma curta pesquisa entre meus amigos e uns contatos do WhatsApp descobri qual era o mais popular [e que tinha menos gente baixo astral _teoria que vai cair por terra após essa história]. Baixei o tal app, fiz meu cadastro, fotos e tals... Minha gente, tenho que dizer: que mercado de carne, né?! Um uni-duni-tê de peitorais, pernas, bundas e pirocas que só Deus para ter misericórdia _preciso entrar numa academia! E Quanta gente pretensiosa e mal educada! O que mais me impressionou foi a quantidade de exigências, padrões e ultimatos que de maneira nenhuma atrai alguém, mas repele. Mesmo assim resolvi deixar ali o perfil, já que eu não tive coragem de tomar a iniciativa de começar um papo com ninguém.

“Vai que alguém se interessa”, pensei.

Bem, pouco mais de 2 ou 3 dias um tal de Junior veio falar comigo. Sem foto de rosto, papo agradável, bem humorado... a coisa toda evolui, fomos ao WhatsApp... foto para lá, foto para cá, me chamava de ‘meu príncipe’, manda mensagem de bom dia, boa tarde, boa noite... uma atenção jamais esperada e aqui na carência pós termino, comecei a realmente considerar a possibilidade de conhecer esse menino, mas baby Jesus sabe de todas as coisas e no dia que eu poderia encontrar com ele, tive que viajar. Oh pena de mim! Quando voltei a cidade mais complicações não me permitiram encontrar com o boy, até parecia que a vida estava dando um jeito de que não cair em tentação... e falar para a senhoras a piroca do boy era bem bacana, porque sim, ele mandou fotos e vídeos para eu ver. Quem morreu foi Whitney!

Enfim, depois de uma dia de trabalho, um bom banho, cá estava eu olhando as atualizações...

BAM!! Junior coloca foto de rosto no WhatsApp... até então só foto de Charlie Chaplin.

BAM!! Vou para o Facebook e no feed de notícias aparece um Pedro [nome real trocado porque não tô afim de ser processado] que eu nem sabia que estava entre meus contatos, com seu namorado... um casal tão amável e apaixonado, fotos, declarações de amor, poesias, textos, trechos de música... tão emocionante, né?! Seria se o tal Pedro, como vocês já devem estar imaginando, não fosse quem? Quem? Quem? CLARO! O Junior do app de pegação gay. Sim, meu povo brasileiro, Pedro e Junior não eram irmãos gêmeos gays tipo, Miloh e Elijah Peters, mas a mesma pessoa.

Aquele Junior que me chamava de príncipe, que me acordava com mensagem de bom dia, que elogiava meu jeito de se expressar, minha forma de ver o mundo... aquele mesmo dizia que estava louco para poder me ver, me beijar, tocar minha pele e transar comigo feito dois animais selvagens na savana africana, na verdade não existia, porque ele é Pedro. E Pedro ama seu namorado, Pedro cita trechos de músicas românticas, usa o status como “fool in love” [bobo de amor] que eu jurava que era por mim, mas não era. Pedro namora, Pedro fala de cumplicidade, mesmo não sabendo o significado desta palavra e o peso que ela exige para ser usada. Pedro, na verdade é um canalha! E Junior não existe.

Junior é um personagem, um herói inventado e eu não quero um herói, porque não sou vítima e não preciso ser regatado da boca de nenhum dragão, o que eu preciso é de alguém que seja autentico, que tenha suas limitações, seus defeitos e segredos, mas não se esconda atrás de uma máscara, uma camada de falsidade tão espessa quanto asfalto grosso em chão batido. Porque mesmo o asfalto pode ser arrancando com uma chuva forte e não há máscara que um dia não caia, não há mentira que não seja revelada... é nisso que eu acredito. Eu acredito em tudo isso, mesmo se tratando de casualidade, porque mesmo que fosse um sexo casual, não significa que precisa ser banalizado.

E antes que essa história/desabafo termine, queria deixar claro que não estou criticando o uso de apps de relacionamento, nem mesmo as pessoas que estão lá _até porque meu perfil ainda existe_, mas que seja esse um alerta _tanto quanto foi para mim_ que é necessário ter mais conhecimento sobre as pessoas com a qual nos relacionamos para não passar por essas situações constrangedoras e desagradáveis _ou que fique tudo no anonimato, já que a ignorância é uma benção. Não vamos nos deixar levar por um momento de carência e falta de afetividade... nunca se esqueça que nós merecemos ser protagonistas de nossas próprias histórias, e ‘a outra’, como o nome já diz, é apenas ‘a outra’. Não aceite ser coadjuvante, quando você merece um Oscar por ser quem você é. 

E o que mais me entristece é que Junior continua por ai, enganando outros, fingindo ser sensível e atencioso para conseguir sexo. E não há muito o que ser feito, há não ser certificar-me cada vez mais que estou no caminho certo sendo honesto com os outros e principalmente comigo.


E fica apenas uma dica: abre teu olho, japonesa! Vou te contar...