domingo, 30 de março de 2008

[os humanos tem me dado medo]²

era para nós nos juntar o grupo para fazer uma despedida para minha amiga que estava indo embora para são paulo [mais uma]. acabou que fomos apenas ela, o irmão dela, o atual affair e eu para o trailler de lanches da rua de baixo.
lá tudo muito típico, comíamos, bebíamos, riamos e muitos outros "íamos" de gente que estava se divertindo. concordem comigo que a pior parte de beber cerveja é que depois da primeira ida ao banheiro parece que abre as comportas da hidroelétrica de itaipu e toda hora a gente fica querendo ir no banheiro.
além de nós tinham outras pessoas em seus respectivos grupos comendo, bebendo, dançando e muitos outros gerúndios de pessoas que estão se divertindo sem causar problemas ao outros. a melhor coisa de estar num lugar publico é cada um respeitar o espaço do outro e tudo mundo fica bem sem grandes conflitos. mas nem sempre é isso que acontece.
num determinado momento minha amiga sentiu vontade de ir ao banheiro e eu resolvi a acompanhá-la porque também queria fazer xixi, o banheiro fica a alguns [muitos] metros do trailler e lá fomos nós dois, rindo horrores e totalmente despreocupados já altos por causa do álcool, na volta um grupo de rapazes que falavam alto e estava visivelmente bêbados ia descendo a rua, enquanto nós passamos eles pararam e começara a falar muito alto, na verdade eles começaram a gritar coisas comigo, tipo:

viado, bicha, boneca barbie [meu sonho ter aquela cintura. cof.]. até aí tudo bem, tudo bem não, suportável, okay, suportável também não, eu diria não preocupante, eu geralmente não debato com gente desse tipo, ainda mais quando esse tipo de gente está bêbada e discutir com bêbado nunca é uma boa opção - me diga que é andy warhol que eu debato com você.
não sei bem porque, talvez por meu descaso com eles porque eu nem fiz questão de olhar para a cara de quem estava falando, um deles possivelmente o menos sóbrio começou a gritar:
"eu não sei como um homem do lado de uma mulher gostosa dessa não faz nada, toma vergonha na sua cara bicha desgraçada" depois outro gritou: "concerta seu torto, qual o gosto de dar o cu boiola?!". sabe aquela vontade de sair correndo para cima e bater na pessoa até ver sangue?! foi exatamente isso que eu senti, mas não é do meu feitio brigar no meio de rua ou no meio de qualquer outro lugar [não é meu feitio brigar] mas que me deu vontade de bater neles deu.

eu me senti tão humilhado, tão desgostoso com a situação, estava tudo tão bom, tudo tão em paz, aí vem um bando de idiota do nada e lhe joga um balde de água fria, chega dar aquele aperto no coração, ao menos apenas minha amiga apenas estava escutando tudo o que eles diziam, mesmo assim não deixei de me sentir humilhado, mas segui meu caminho sem falar nada, sem olhar para trás. eles não pararam, quando eu já estava de costas para eles um deles gritou: "toma cuidado! se eu te pego numa reta sozinho eu te bato até você virar homem" nessa hora eu senti medo, muito medo. e caminhei mais rápido. imagina só isso?! apanhar porque causa de sua orientação sexual, e eu que achava que o interior da caatinga era um lugar pacifico, certo que eles estavam bêbados, mas como diria minha amiga: "a bebida entra e a verdade sai" [?] isso de certa forma tem me preocupado, eu que sou uma pessoa que ando nessas ruas altas madrugadas sozinho, pense, vai que por azar encontro com um desses sozinho, apanho até morrer. não que eu ache que isso vá realmente acontecer um dia, mas nunca se sabe, ninguém conhece ninguém.
me entristece demais saber que no mundo ainda existe esse tipo de gente. eu nem consigo explicar o que eu sinto, sei lá, é que eu tenho tudo tão bem resolvido dentro de mim e geralmente estou ao redor de gente tão resolvidas com elas mesmas, é estranho você ver esse tipo de comportamento medieval. é que meus amigos são praticamente todos heterossexuais e são pessoas de mente tão aberta e não desprovidos de preconceitos que me assusta [mais do que deveria até] ver esse tipo de atitude próximo a mim. penso que esse texto está sem sentido, perdoem me é que eu ainda estou meio confuso e não sei bem o que pensar. como eu já disse antes, não gosto de contar coisas ruins aqui no blog, mas eu precisava dividir e vejo todos vocês como bons ouvintes e às vezes a gente só precisa de alguém para ouvir o que temos para dizer, peço desculpas por descarregar essa lama em vocês.

pior de tudo é que você olhar ou redor e pensar: "uau, estamos no Brasil e temos a maior parada gay do mundo" sim, e de que isso vale quando o país não tem políticas serias e integração e valorização do publico homossexual?! eu não quero ir para a rua com um camiseta baby look uma calça mega apertada e sair beijando e me esfregando com quem quer que seja, não estou dizendo que todos quantos freqüentam a parada vão com essa intenção, mas é a impressão que me dá observando tudo aqui de tão longe. entra ano, sai ano e tudo continua tão estagnado e pessoas continua sofrendo, sendo humilhadas, machucadas como eu fui. não estou aqui fazendo a linha luciano hunk que escreveu num jornal para reclamar que roubaram seu rolex caríssimo enquanto pessoas morrem debaixo dos pés dele. não, não é isso. o que eu passei é o mínimo diante do que muita gente tem passado, diante de tanta gente que tem morrido brutalmente por ter coragem de dar a cara a tapa e dizer que são gay, lesbicas, bissexuais e travestis. ninguém diz nada, ninguém faz nada, e todos ficam continuam pesando que o mundo gay são luzes estroboscopicas, orgias sexuais e glitter. enquanto isso o sangue purpurinado de muitas bichas é derramado nos guetos e ruas escuras do mundo inteiro. talvez o maior problema de todo o publico homossexual é tentar mostrar que somos diferentes, pois eu digo, não somos diferentes somos iguais, absolutamente iguais a qualquer um outro hetero que existe no mundo. temos os mesmo medo, angustias, amores, paixões, desilusões, somos tão capazes quanto qualquer outro ser humano. eu sonho com o dia que o mundo será um lugar livre e justo, talvez eu o verei, talvez não, mas não deixo de desejar um mundo onde as diferenças serão respeitadas e todos seremos considerados diferente, porém iguais.

quinta-feira, 27 de março de 2008

[história 115: quem sobe no seu palaque?]

2008 é ano político, o Brasil inteiro começa a voltar suas atenções nas eleições municipais, eis a vez dos prefeitos e dos vereadores competirem para ver que senta no gabinete da prefeitura e nas cadeiras da câmara dos vereadores. não, eu não vou começar um texto sócio-político, até me agradaria debater sobre o tema, mas a história é bem menos seria.
você deve imaginar como já estão os ânimos por aqui, minha cidade tem a prefeitura como uma das únicas mantenedora e fornecedora de capital [$] direto e indireto, ou seja, em cidades pequenas respira-se política e politicagem aos montes.

candidatos semi-alfabetos pipocam em cima de palancas e nós temos que escutar diversas baboseiras. num comício, numa eleição passada um candidato à vereador subiu no palanque da oposição para dizer porque tinha mudado de partido tentando convencer os eleitores a tomar a mesma atitude, ele disse:

- antigamente fuluno de tal passava mel na minha boca, hoje ele passa bosta, porque eu deixei se ser besta, eu não me deixo enganar.

precisa explicação? penso que ele quis dizer com o “hoje ele passa bosta” é que o candidato a quem ele dava apoio não o enganava como antigamente. então fica a dica para todos, não deixem ninguém enganá-los, não permitam que passem mel na boca de vocês, deixem que passem bosta, porque vocês não são bestas.

olhe nas mãos de quem o Brasil está, eu tenho medo. vou te contar...

segunda-feira, 24 de março de 2008

[história 114: vou ter um bh]

[de repente meu celular toca.]

- oi? - eu atendo.

[um grito]

- amigooo! adivinha?
- o que foi isso criatura do mau? adivinhar o quê?
- eu vou ter um bh.
- um o quê?
- um bh.
- ai que legal... e o que seria um bh?
- um bom "horgasmo".
- espírito sem luz, orgasmo não tem h.

[silêncio]

- não?
- claro que não.

[silêncio]

- tô nem ai, com ou sem "h" eu vou gozar.

verdade seja dita, semi-analfabeto ou não, eu morri de inveja dele. ele goza, eu não. é certo que com ou sem "h" gozar é bom. vou te contar...

quarta-feira, 19 de março de 2008

[história 113: morri?]

éramos em cinco na frente da lanchonete conversando e bebendo. três de nós estavam sentados, um amigo e eu em pé. eu falava de animado alguma palhaçada típica com direito a interpretação e todos riamos.

de repente apareceu um bêbado, daqueles típicos bêbados de cidade pequena que tudo mundo só vê quando está bêbado e tudo mundo conhece por causa das peripécias sob efeito do álcool. como nosso grupo era um dos mais animados ele veio caminhando cambaleante em nossa direção. parou próximo a mim, nós fizemos silêncio e começamos a observá-lo. ele olhou bem para minha cara [mais uma vez eu fui o escolhido], cambaleou para trás, cambaleou para frente, tentou se manter no centro, olhou pra mim de novo, fez cara de surpresa, franziu a testa e disse num tom de absurdo espanto:

- ué, você está vivo?

primeiro veio o silencio para processar a pergunta do bêbado, depois veio a explosão de risadas. como assim: "você está vivo?" será que eu morri e esqueci de cair? sou eu um zumbi? [medo!] eu fiquei calado, na verdade o que mais tinha a ser dito?! eu tinha acabado de ser morto pelo bêbado que fazia a intima para o meu lado.

depois disso meus amigos não param de me perguntar se eu estou vivo. até eu comecei a duvidar de minha própria existência sobre a terra. ué, será que eu estou vivo? vou te contar...

segunda-feira, 17 de março de 2008

[história 112: a revolucionaria semi-analfabeta]

[dos tempos que eu ainda estudava o primeiro ano do ensino médio]

minha turma foi a primeira turma de ensino médio daqui da cidade, a turma foi aberta no noturno, numa escola que até então funcionavam apenas turmas de primário de manhã e à tarde. a escola ficava numa das partes mais baixas da cidade e no fundo dela tinha um esgoto a céu aberto e eventualmente batia um cheirinho, não muito agradável. e tudo mundo sempre reclamava do odor e pouco se fazia da parte dos políticos para mudar a situação.

cerca de dois meses depois do começo das aulas, estávamos nós numa aula de português e literatura brasileira quando batem à porta, o professor abriu, conversou com alguém do lado de fora, abriu mais a porta dando espaço para entrar ninguém mais ninguém menos do que a secretaria de educação do município.

- boa noite gente? – ela disse, nos cumprimentando.
- boa noite – respondemos em coro.
- estão gostando da escola? estão gostando dos professores? eu vim aqui para me certificar que está tudo bem com vocês, como vocês sabem essa é a primeira turma de ensino médio e foi com muita dificuldade que a gente implantou o ensino médio aqui, abandonando o magistério... [etc e tal, blá, blá, blá. e o texto prossegue por mais uns 10 minutos] ...mas eu também queria saber se vocês têm alguma reclamação, alguma coisa para dizer, a palavra está aberta para vocês agora.

[silêncio]

de repente uma colega se levanta e toma a palavra.
- ôh, dona fuluna, eu tenho uma reclamação para fazer. [gelo em tudo mundo]
- pode falar.
- a gente não agüentamos mais esse fedor do esgoto, a gente queremos mudanças, a gente ficamos aqui quase morrendo e ninguém faz nada. por quê?

sim, ela construiu essa frase, com essa concordância verbal, tão naturalmente quanto se tivesse dizendo: "eu gosto de pão com ovo". sabe quando alguém passa a unha na parede lisa e faz aquele barulho terrível? pois foi essa a sensação que eu tive quando ouvi-a dizendo. a secretaria de educação trocou um olhar com o professor, um daqueles olhares infames.

- nós não agüentamos o que, querida? nós queremos mudar o quê?
- a gente não agüentamos o fedor do esgoto, a gente queremos mudanças.
[ela fez de novo]

a menina abrindo a boca e me dando facadas eram as mesmas coisas, mas eu juro que senti pena da coitada, imagina pagar um mico desses em plena aula de português, mas eu dou credito para ela, ao menos tem espírito revolucionário, não é?!

eu que sentava na frente, escutei a secretaria dizer para o professor:

- o senhor passar na secretaria de educação que eu lhe darei um dicionário e uma gramática para o senhor dar para ela.
- essa aí nem se comer o aurélio inteiro não muda – respondeu o professor. [praticamente uma índia chucra, coitada!]

pior que tem coisa que não muda mesmo, por isso eu digo: "é melhor a gente ficarmos calados do que a gente falarmos besteiras, não é?!" vou te contar...